Falcão Peregrino

Falco Peregrinus


Identificação

De todos os predadores alados provavelmente nenhum combinará de uma forma tão notável, um tão elevado grau de especialização, uma tão grande beleza e capacidades de voo tão extraordinárias como o falcão peregrino (Falco peregrinus).

Autêntica jóia viva da Natureza, o seu voo picado permite-lhe atingir velocidades inacessíveis a todos os outros seres vivos, e o simples vislumbre da sua característica silhueta recortada contra o azul do céu é suficiente para aterrorizar a maior parte das aves.

Desde tempos imemoriais que as suas faculdades impressionaram o Homem. No antigo Egipto simbolizava o Deus Hórus e, entre os falcoeiros, desde a antiguidade até ao presente, permaneceu sempre como a mais cobiçada das aves, valorizada pelas suas capacidades de caça e formosura ímpar. Na idade média a posse destas aves chegou a ser autorizada apenas aos príncipes e duques da corte, funcionando como um indicador de estatuto social.

O falcão peregrino é uma ave de médio porte, corpo compacto, pescoço curto e cabeça arredondada com grandes olhos negros. A sua cauda é curta, ao contrário das suas asas, longas e ponteagudas, e das patas estreitas e longas. As suas penas das asas são rígidas e as restantes estão bem justas ao corpo, pelo que toda a sua fisionomia se encontra bem adaptada às suas performances de voo.

As suas dimensões variam consideravelmente consoante a subespécie e, para além disso, apresenta também um acentuado dimorfismo sexual, sendo o macho bastante menos corpulento do que fêmea. Na Península Ibérica, o comprimento total andará entre os 40 e os 50 cm e o peso médio de um macho e fêmea adultos rondará os 600 e os 900 gramas, respectivamente.

Distribuição

Espécie de distribuição quase mundial (com excepção da Antártida), que, nidifica na maioria dos países da Europa nomeadamente em Albânia, Alemanha, Andorra, Áustria, Bélgica, Bulgária, Chipre, Croácia, Dinamarca (incluindo a Gronelândia), Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Itália, Lituânia, Luxemburgo, Noruega, Polónia, Portugal, Reino Unido (incluindo Gibraltar e Ilha do Homem), República Checa, República da Irlanda, Roménia, Rússia, Suécia, Suíça, Turquia e Ucrânia (Snow & Perrins 1998, BirdLife International/European Bird Census Council. 2000).


O seu estatuto migrador está relacionado com a latitude a que cria, sendo os indivíduos escandinavos migradores, ao passo que os sul-europeus são sedentários, efectuando apenas dispersões locais. As áreas de invernada estendem-se desde a Europa Central até África, a sul do Equador (Cramp & Simmons 1980).

Em Portugal distribui-se por todos os principais maciços montanhosos do país, assim como pelos vales escarpados do nordeste, e ao longo de toda a franja litoral centro e sul (Rufino 1989). As aves invernantes e dispersantes ocorrem por grande parte do território mas com maior frequência nas vastas áreas estepárias do Alentejo.

Ecologia

As suas capacidades únicas permitiram-lhe colonizar os mais diversos tipos de habitat, desde os desertos quentes até à tundra, revelando todavia preferência pelas zonas abertas. São conhecidos territórios de falcão peregrino em muitas zonas costeiras até aos 4000 m nos Himalaias, estando presente em todos os continentes e latitudes, sendo uma espécie cosmopolita o que revela o seu sucesso adaptativo.

Nidifica em arribas marítimas, também em ilhas rochosas ou em precipícios em zonas montanhosas, e ao longo de vales de rios. Dado a sua adaptabilidade, e em situações sem perturbação, encontra-se por vezes em estruturas construídas pelo Homem altas e inacessíveis, como torres, ruínas, antenas e pontes. Evita zonas com intensa actividade humana, ou florestas densas, pântanos com vegetação densa, extensas áreas de planície e zonas agrícolas, e áreas abertas e extensas de água.

Requer extensos campos abertos para caçar, incluindo biótopos estepárias, zonas húmidas e arribas costeiras. Caça também nas proximidades de encostas escarpadas e falésias aproveitando a surpresa e o desnível para alcançar as suas presas em voo. No Inverno o Falcão-peregrino está associado a zonas abertas com abundância de presas, o que no Baixo Alentejo corresponde geralmente às proximidades de zonas húmidas (estuários, vales de rios e barragens) (Cramp & Simmons 1980, Santos 1998).


Dormem de noite em sítios abrigados, em superfícies rochosas, e às vezes recorrem também a árvores. De Inverno utilizam, longe dos locais de nidificação, rochas ou edifícios altos, incluindo igrejas, antenas, pontes. Antes da postura, o casal dorme junto no penhasco escolhido para nidificar e durante a incubação o macho dorme noutro lugar.

Em todo o mundo são reconhecidas mais de 20 subespécies, sendo o Falco peregrinus brookei, a subespécie presente em Portugal. No entanto, durante o Inverno verifica-se uma entrada temporária de falcões oriundos do norte da Europa. Foi este tipo de comportamento migratório, característico de algumas populações, que deu origem ao seu nome de peregrino.

Alimentação

O falcão peregrino é uma espécie ornitófaga, isto é, alimenta-se quase exclusivamente de aves. Mas apesar de ser um especialista, a sua acção predatória pode incidir sobre um número notavelmente alargado de presas. Dentro dos limites do seu território de caça, praticamente nenhuma outra ave se encontra totalmente isenta do risco de vir a figurar na ementa do falcão peregrino.

Estão documentadas capturas de espécies tão pequenas como chapins ou tão grandes como gansos, e mesmo de outras rapinas como corujas, gaviões ou águias-de-asa-redonda. Um estudo realizado na Alemanha nos anos setenta, permitiu a elaboração de uma lista de presas que ascendeu a 210 espécies diferentes de aves. Por tudo isto, no nosso País, provavelmente apenas a abetarda, as cegonhas, grous, flamingos e as maiores rapinas, se poderão dar ao luxo de ignorar a presença do falcão peregrino.

Na maior parte dos casos, as suas presas são aves de pequeno a médio porte e a lista de capturas de um determinado indivíduo é até certo ponto um reflexo da composição da avifauna existente no seu território. Contudo, se tivéssemos de escolher a sua presa de eleição, esta seria certamente o pombo-da-rocha (Columba livia), que frequentemente constitui mais de 50% da dieta do falcão. Este facto dever-se-á não apenas à abundância de pombos, como ao facto destes constituírem uma refeição altamente energética e de dimensões óptimas. Para além disso, o seu voo rápido e rectilíneo, revela-se particularmente vulnerável ao tipo de caça praticado pelo falcão peregrino.

Reprodução

Espécie monogâmica e solitária, a relação é sazonal podendo, por vezes, durar toda a vida. Ambos os progenitores cuidam e alimentam as crias, no entanto cabe à fêmea a maior parte do trabalho. Crias nidicolas (Cramp & Simmons 1980). Durante a nidificação tem um comportamento fortemente territorial ainda que apenas na vizinhança próxima do ninho correspondente ao afloramento ou conjunto de afloramentos rochosos escarpados (Cramp & Simmons 1980). No entanto, pode nidificar em proximidade de outras aves não predadoras, como grifos, cegonhas-pretas, gaivotas, mas é nunca perto da Águia-real ou da Águia de Bonelli. O processo de nidificação desenvolve-se normalmente entre Março e Julho.


Factores de Ameaça

O aumento da utilização de agro-químicos intervém indirectamente nas populações do Falcãoperegrino. Sendo ornitófaga e situando-se no topo da cadeia trófica, acumula no seu organismo os produtos tóxicos que consome através das suas presas. Em algumas regiões de Espanha comprovou-se uma baixa produtividade associada com um elevado uso de pesticidas (Gainzarain et al. 2003).

A perseguição humana através do abate a tiro e utilização de iscos envenenados, motivada por conflitos associados ao seu comportamento predatório, constitui um importante factor de mortalidade desta espécie.

A pilhagem de ninhos e o roubo de juvenis, para a falcoaria, continuam a ser factores importantes que intervêm na diminuição da produtividade das colónias.

A perturbação humana em zonas de nidificação e durante os períodos mais sensíveis, provocada por actividades de turismo e lazer, actividades cinegéticas, conduz ao abandono de territórios e abaixamento da produtividade da população.

O abandono e alteração de diversas práticas agro-pecuárias tradicionais, caso da cerealicultura, pastoreio extensivo, pombais tradicionais conduzem a uma diminuição das populações de presas.

A colisão e electrocussão em linhas aéreas de distribuição e transporte de energia.

A degradação dos habitats de nidificação e/ou alimentação devido à construção de infra-estruturas (barragens, parques eólicos, estradas), instalação de regadios, produção florestal, actividade de extracção de inertes.

As doenças dos pombos (e.g. Candidíase Tricomoníase, etc.). Como outras aves ornitófagas, este falcão pode ser afectado por morbilidade e mortalidade causadas pelas doenças daquelas aves.

A instalação de parques eólicos nas proximidades dos locais de nidificação da espécie está considerada como uma ameaça importante devido à perturbação provocada quer durante a fase de construção (ao nível da abertura de acessos e colocação de infraestruturas), quer durante a fase de exploração, dada a possibilidade de aumento da presença humana associada à abertura de acessos.

Essas unidades de produção de energia eléctrica, dependendo da tipologia e localização dos aerogeradores podem ainda, durante a fase de exploração, constituir uma causa de mortalidade desta espécie devido à colisão nas pás dos aerogeradores. Em especial, se estes forem instalados nas zonas importantes em termos de nidificação e dispersão de juvenis, ou ainda nas zonas de alimentação situadas nas cumeadas das serras. Os traçados eléctricos que estão associados aos parques eólicos constituem outro problema importante devido aos subsequentes riscos de colisão e electrocussão.

in " http://www.naturlink.pt/canais/Artigo.asp?iArtigo=1982&iLingua=1
in " http://www.icn.pt/psrn2000/caracterizacao_valores_naturais/FAUNA/AVES/Falco%20peregrinus.pdf
Comentários
"O Covão da Ponte é sem dúvida um daqueles sítios mágicos que nos leva a sentir alguma responsabilidade no momento de o mostrarmos a outras pessoas. A ligação que o espaço estabelece connosco é tal que tudo ali nos faz bem... "
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