Tartaranhão Caçador

Circus Pygargus


Identificação

Ao pé de Entradas, não muito longe de Castro Verde, num fim de tarde ensolarado de Maio, uma ave de rapina de um cinzento claro voa lentamente, a baixa altitude, pesquisando atentamente os movimentos no interior da seara. De quando em quando, pousa, quase na vertical, numa atitude de asas em V que lhe é característica. É um macho de tartaranhão-caçador (Circus pygargus), o caçador das searas.

Distribuição

A área de nidificação estende-se pelo Paleártico Ocidental, geralmente a Sul da latitude 60ºN, desde a Península Ibérica ao Kasaquistão, registando-se a ocorrência de alguns casais nidificantes em zonas costeiras do nordeste africano. Inverna na África sub-sahariana, principalmente mo Sudão, Etiópia e África do Leste e no sub-continente indiano (Krogulec 1997).

A sua área de distribuição na Europa compreende a Alemanha, Andorra, Áustria, Bielorússia, Bulgária, Croácia, Dinamarca, Eslováquia, Espanha, Estónia, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Itália, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Moldávia, Polónia, Portugal, Rússia, Reino Unido, República Checa, Suécia, Turquia e Ucrânia (BirdLife International/European Bird Census Council 2000).

Tem duas áreas de invernada: uma sub-saariana, ao longo do Sahel estendendo-se pela África Oriental até à África do Sul, outra no sub-continente indiano e Sri Lanka. Nacional: Segundo Onofre & Rufino (1995), o tartaranhão-caçador ocorre como nidificante em grande parte do território nacional, em particular na metade este do país, de norte a sul, acompanhando a distribuição dos terrenos abertos e das searas nas planícies do Alentejo e os planaltos serranos do centro-leste e norte. Segundo o Novo Atlas das Aves Nidificantes de Portugal está praticamente ausente de grande parte do oeste do país e com representação pouco significativa no Algarve (ICN em prep.).

Ecologia

Utiliza solos secos ou húmidos (incluindo terrenos agrícolas), charnecas, dunas e turfeiras. Também se adapta a zonas arbustivas com Ulex e áreas plantadas com coníferas jovens, urzais e até campos de milho; em condições favoráveis tendem a reproduzir-se em zonas húmidas (Cramp & Simmons 1980).

Frequenta áreas predominantemente desarborizadas. Na região mediterrânica 90% dos casais nidificam no interior de searas mas em latitudes superiores são essencialmente escolhidas áreas de vegetação herbácea natural, matos baixos e plantações florestais recentes.


Em Portugal, segundo Franco et al. (1995), as maiores densidades encontram-se associadas às culturas cerealíferas a sul do Tejo, mas há casais que nidificam em dunas do litoral algarvio, sapais do estuário do Tejo e em matos e culturas de centeio dos planaltos serranos do Norte e Centro do país. Claro (2000) afirma, com base num estudo realizado em Évora, que a espécie prefere searas de trigo, aveia ou cevada em detrimento de pousios em geral sobrepastoreados. Os ninhos concentram-se também em áreas com maior proporção de searas e com maior comprimento de orlas (limites de parcelas e linhas de água), por constituírem locais preferências de obtenção de alimento (Claro 2000).

Fora da época de nidificação demonstra pouco interesse por zonas húmidas e pela vizinhança de lagos ou águas interiores (Cramp & Simmons 1980).

As presas, segundo Claro (2000), são capturadas predominantemente em searas e ao longo das orlas entre diferentes tipos de uso de solo ou ao longo de linhas de água com vegetação herbácea espontânea; não caça habitualmente em zonas abertas (Cramp & Simmons 1980).

Dorme de noite no solo. Na área de nidificação, até à postura, tanto o macho como a fêmea dormem separadamente no território; o macho pode no entanto dormir a 6-8 km do ninho, frequentando locais comuns de dormida com os não reprodutores. Quando o calor é muito, tanto o macho como a fêmea procuram abrigo em baixo de ramos de coníferas (Cramp & Simmons 1980).

A vida vai decorrendo calma. Os tartaranhões - caçadores, que vivem na Europa e na Ásia, de Portugal à Rússia, vão conseguindo manter-se. Contudo, como nidificam muitas vezes em campos de forragem ou searas, a época do corte e da ceifa é sempre uma ocasião de risco. É como se um de nós estivesse em casa e, de repente, o quarteirão fosse arrasado... Mesmo assim, e após algumas décadas em que os efeitos negativos da agricultura intensiva sobre as populações de tartaranhões se intensificaram, a situação parece agora, pelo menos na União Europeia, um pouco mais favorável.

Os tartaranhões-caçadores aprenderam a viver no ecossistema das searas. Pelo menos desde há dez mil anos que todos os anos se fazem searas, provavelmente desde essa altura o caçador das searas vive em conjunto com o agricultor das searas.

Mas nem só nas searas vivem estas aves, ao longo da sua área de distribuição podemos encontrar os seus ninhos em locais tão diversos como um povoamento jovem de pinhal, uma mancha de mato fechada ou um sapal.

Alimentação

O Tartaranhão-caçador captura essencialmente pequenas presas – ortópteros, pequenos répteis, passeriformes, micromamíferos e pequenas crias de aves e mamíferos. Embora seja considerado um predador generalista, a sua dieta pode apresentar especificidade a nível local na selecção de presas. No Alentejo, Franco et al. afirma que, as presas dominantes são os ortópteros, aves e pequenos mamíferos.


Reprodução

Espécie semi-colonial, ainda que possa nidificar isoladamente em áreas com baixa densidade de casais. Normalmente monogâmicos, a relação é de duração sazonal. Nidifica no solo, sendo o ninho construído pela fêmea com material vegetal: caules de gramíneas, espigas e restolhos. As crias são nidícolas e somente a fêmea cuida e alimenta as crias (Cramp & Simmons 1980).

Factores de Ameaça

A actividade da ceifa, segundo Claro (2000), para os casais nidificantes nos campos cerealíferos, constitui o principal factor de insucesso reprodutivo, não tanto pela destruição directa dos ninhos mas pelo facto de ao ser cortada a vegetação, estes tornarem-se mais vulneráveis à perturbação pelo homem e à predação natural. Quando a ceifa é efectuada durante a incubação, regista-se 90-100% de insucesso reprodutivo. O facto de os ninhos poderem estar agregados na mesma parcela agrícola com feno ou cereal, determina o incremento do risco de afectação pela actividade de ceifa.

A intensificação da agricultura através de monoculturas cerealíferas em detrimento de outros usos como leguminosas e pousios, resulta na redução do mosaico agrícola com decréscimo da diversidade de habitat e traduz-se em diminuição na disponibilidade alimentar e de locais importantes para a reprodução. Além disso a transformação do sequeiro em regadio afecta negativamente as espécies conduzindo a perda de diversidade de habitats resultante da supressão de rotação de culturas.

O abandono agrícola resulta em perda de habitat adequado para a nidificação e alimentação.

O aumento da utilização de agro-químicos intervém directa e indirectamente nas populações de aves, aumentando a mortalidade e reduzindo a capacidade reprodutiva e diminuindo as populações presa.

A florestação das terras agrícolas resulta na perda de habitat e induz o aumento das taxas de predação nas áreas adjacentes.

A expansão de cultivos lenhosos: a plantação de pomares, amendoais, vinha, olival resultam em perda de habitat adequado à alimentação e reprodução.


A perturbação provocada pelas actividades humanas, resultante da expansão urbana e construção dispersa e da actividade turística, desportiva e cinegética, influencia muito a escolha do habitat de nidificação por esta espécie, que evita áreas densamente povoadas. Causa stress nas aves, abandono de posturas e locais de descanso, vôos de fuga em condições desfavoráveis e uma redução do tempo dedicado pelas aves à alimentação.

O abate ilegal constitui um factor de mortalidade desta espécie. No inicio da época venatória em 15 de Agosto na Península Ibérica, existem registos de abate de indivíduos nidificantes em Portugal.

A pilhagem e destruição de ninhos tem sido apontada como um dos factores que intervêm na diminuição da produtividade das colónias de Tartaranhão-caçador, em algumas áreas de nidificação.

O aumento de predadores de ovos e crias, nomeadamente os cães assilvestrados pode influir no êxito reprodutor das espécies de aves que nidificam no solo.

A electrocussão e colisão em linhas aéreas de transporte de energia é um factor de mortalidade destas aves.

Os parques eólicos nas proximidades dos locais de nidificação da espécie está considerada como uma ameaça importante devido à perturbação provocada quer durante a fase de construção (ao nível da abertura de acessos e colocação de infraestruturas), quer durante a fase de exploração, dada a possibilidade de aumento da presença humana associada à abertura de acessos. Essas unidades de produção de energia eléctrica, dependendo da tipologia e localização dos aerogeradores podem ainda, durante a fase de exploração, constituir uma causa de mortalidade desta espécie devido à colisão nas Plano Sectorial da Rede Natura 2000 Fauna, aves pás dos aerogeradores. Os traçados eléctricos que estão associados aos parques eólicos constituem outro problema importante devido aos subsequentes riscos de colisão e electrocussão.

in " http://www.naturlink.pt/canais/Artigo.asp?iArtigo=1650&iLingua=1
in " http://www.icn.pt/psrn2000/caracterizacao_valores_naturais/FAUNA/AVES/Circus%20pygargus.pdf
Comentários
"Quem passa pelo Covão da Ponte não esquece, e eu que o diga. Embora já lá tenha estado noutras condições (Inverno), estes dias que passei lá recentemente foram "Show"."
Vítor Marques
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